Raymond Carlos Nakai nasceu em uma família de descendência dos índios Navajo e Ute em Flagstaff, Arizona, em 1946. Seus pais apresentavam um programa de rádio em idioma Navajo. Enquanto ouvia as fitas do programa, ele ouviu uma gravação de flauta de William Hornpipe, um músico Lakota da reserva Pine Ridge e ficou impressionado. Durante toda a sua vida ele esteve em contato com a música. Na sua cultura é muito comum a presença da música em suas atividades e ritos. Cantores, contadores de história, e nas mais diversas formas, a música é presente nas tradições de seu povo e ele passou a maior parte da sua vida imerso em todas essas experiências e perspectivas. Nakai nunca teve um treinamento formal em música nos moldes ocidentais, na escola, ele tentou tocar flauta na banda, mas foi designado para tocar trompete, ele afirma que na época não teve muito interesse em aprender o trompete, mas tocava muito bem. Mais tarde entrou para a Universidade Northern Arizona e passou a tocar instrumentos de sopro na banda marcial. No meio do curso foi convocado para a Marinha dos Estados Unidos em 1968 e passou dois anos estudando comunicações e eletrônica no Havaí e no Pacífico Sul, mas continuou a receber treinamento musical com trompete durante seu serviço Nacional. Durante alguns períodos ele tentou ingressar em escolas de música, foi aprovado em testes altamente competitivos para a Escola de Música das Forças Armadas e estava na lista de espera, mas sua carreira na Banda das Forças Armadas teve que ser abandonada depois que um acidente de carro danificou sua boca, o que o impossibilitou de continuar a tocar o trompete – Nakai teve outras oportunidades de ingressar em importantes escolas de música, mas quando as oportunidades surgiram, o artista já não estava mais interessado em ter aquele tipo de formação.

A História de Carlos Nakai 1

Após o acidente, Nakai voltou para a reserva Navajo em 1971 e passou por um breve período de depressão e vício em drogas e álcool, resultado de traumas por conta da sua lesão na boca e devido ao fato de ter perdido vários amigos próximos durante a guerra do Vietnã. Em 1972, ele recebeu como presente uma flauta tradicional feita de cedro. Intrigado com aquele instrumento, passou a estudá-lo, sua técnica, sua fabricação e repertórios de músicas tradicionais para a flauta Indígena Americana, mas encontrou muitas dificuldades. A flauta, que vinha da cultura dos povos nativos, não apresentava registros, partituras, nem mesmo gravações, já que os povos Indígenas passavam seus saberes através da tradição oral, até mesmo a fabricação da flauta não apresentava um padrão, em cada povo ela era executada de uma forma.

Nakai utilizou toda a técnica e conhecimento adquirido tocando trompete desde a escola, experiência que somou 25 anos, e mergulhou fundo no entendimento da tecnologia da flauta: Os diferentes tipos de apitos, as diferentes flautas tocadas pelo mundo, e todo tipo de instrumento de sopro e instrumentos que utilizasse tubos, estudou até mesmo o órgão de tubos. Enquanto pesquisava a história da flauta e da flauta nativa americana, aprendia a tocar e descobriu que não havia um padrão para o instrumento nativo. A técnica variava de um instrumento para o outro e de um povo para o outro. Ficou sabendo que vários fabricantes de tubos para flautas e órgão de tubos vieram para a América do Norte em 1700 – da Inglaterra, Escócia, Áustria e outros países europeus – e apresentaram esses instrumentos aos nativos, que então começaram a fazer os seus próprios.

“A flauta é como uma escultura sonora – uma obra de arte que também cria som”. Carlos Nakai

Cada nativo coloca seu próprio toque quando cria a flauta. Ele entrevistou os nativos que diziam: “Ah, sim, meu avô tinha uma dessas”. Diante de tanta diversidade ele percebeu que precisava refazer o instrumento para encontrar seu próprio padrão. A partir daí passou a estudar a tecnologia do som da flauta, como produzir o som e então fazê-la funcionar. Por tentativa e erro, ele conseguiu identificar 14 possíveis sons ou notas e ele chamou esta de sua escala cromática.

Em um determinado momento ele estava produzindo suas próprias flautas, com um professor de flauta aprendeu que ao invés do carvalho, que Nakai estava usando, o cedro é a única madeira que funciona bem com as flautas. Porém, diante da enorme quantidade de informações que precisavam ser registradas para manter a qualidade dos instrumentos, Nakai percebeu que precisava de ajuda. Até que conheceu uma flauta comanche, criada por Oliver W. Jones, e passaram a trabalhar juntos. Por anos desenvolveram instrumentos experimentais e aos poucos foram tendo extensos registros de todo este profundo trabalho de experimentação. E com isso Nakai passou a usar flautas nas afinações G menor, outra em A e outra em E.

Nakai criou uma intimidade tão profunda com a Flauta Nativa que entendeu que seu poder ia além da própria música. Ele afirmou que os instrumentos com os quais trabalhava pareciam vibrar em uma área ao redor o peito e em alguns lugares da cabeça. E com isso passou a buscar essas características nos instrumentos que tocava. Ele observava onde elas faziam o corpo dele vibrar e quando tocava para alguém seu objetivo era que as pessoas sentissem essas vibrações produzidas por sua música. Então, ao invés de trabalhar apenas com o som do instrumento, ele trabalhava com a forma como esse som afetava o ouvinte.

“Trabalho muito com o instrumento Boehm hoje, mas não acho esse instrumento satisfatório, porque é apenas uma flauta. O próprio metal vibra, mas não envia a vibração como uma dessas flautas nativas, ou mesmo uma outra flauta de madeira. É um instrumento técnico que é feito apenas para trabalho orquestral, então eu o uso apenas para tocar música. Mas as flautas que eu tenho, algumas de madeira, eu os uso para mexer com as pessoas.” Carlos Nakai

Ancestralidade

“Fui criado para acreditar que meu povo nativo havia sido injustiçado e que não deveria gostar das pessoas ou confiar nos outros. Sempre tive a sensação de que não era assim que eu queria ser, mas quando servi na Marinha, fui apresentado ao budismo. Então percebi uma identificação no meu verdadeiro modo de ser com a inclusividade da filosofia budista, e ela me ensinou a perceber que sou ilimitado em minha consciência. Posso ser o tudo que eu quiser, de um momento para o outro eu posso mudar.” Carlos Nakai

Carlos Nakai passou anos se dedicando ao entendimento das flautas nativas, e nesse meio tempo retomou seus estudos na Universidade Northern Arizona. Em 1979 ele concluiu seu bacharelado e posteriormente concluiu um mestrado sobre os Índios Americanos. Seu acumulado de experiências culturas, vindas de sua origem nativa, suas experiências quando morou fora pela Marinha, com o Budismo, com a música e na Universidade, permitiram que Nakai pudesse desenvolver um senso muito plural de consciência.

Por ser de origem Indígena, o artista viveu como que em dois mundos ou dimensões ao mesmo tempo. Ele dizia ter “duas culturas”. Sua ancestralidade trouxe o senso Nativo Americano de consciência do ser, sendo sua primeira cultura. E a segunda é a cultura Americana. Para ele, era uma vantagem ter duas culturas, mas para muitos artistas de música tradicional contemporânea e parentes dentre esses povos, essa pluralidade cultural era ignorada e muitos preferiam perpetuar suas tradições.

Para Nakai, a vantagem é que eles poderiam misturar as duas culturas e fazê-las trabalharem juntas, e até mesmo se desenvolverem em uma forma mais expressiva. Ele acredita que exatamente esta capacidade de adaptação e transformação cultural foi o que deu origem ao que é o seu povo nos dias de hoje. Originalmente, os povos apaches e os navajos, da família linguísticas sul Athapaskan, vieram de povos que migraram do Canadá há centenas de anos, onde habitavam a região do Lago Athapaskan. Com a migração para o sul muito de sua cultura original se perdeu, inclusive o que se tem notícia é que esses povos originalmente tinham a flauta muito presente em sua cultura e essa característica foi perdida. Para Nakai, a cultura existente hoje entre estes povos é um acúmulo de diversas outras culturas que eles foram tendo contato durante a migração. E portanto a sobrevivência bem-sucedida destas tradições é a capacidade de se adaptar a uma nova cultura, de assimilar novas ideias e torná-las parte da sua, mas muitas pessoas não aceitam isso. Muitos veem esse ponto de vista como uma desvalorização das culturas tradicionais.

O flautista afirma que em muitos círculos “iluminados” na América, você encontra essa atitude inflexível, oculta, mas ainda está lá. Apesar disto, ele via uma forte responsabilidade vinda de seu trabalho para com as crianças. E um dos seus objetivos era poder levar suas experiências e conhecimentos para elas, levando empoderamento, consciência e permitindo dar-lhes ferramentas para sua sobrevivência futura.

 

A música

Em uma pesquisa que Nakai fazia, com alguns flautistas tradicionais, um deles disse: “Tudo o que fazemos é tocar nossa música vocal nesses instrumentos. Contamos nossas histórias.” E foi aí que as coisas começaram a se encaixar. Nakai passou a criar suas músicas próprias músicas inspiradas na cultura de seu povo e colocou um pouco de todas as suas influências.

“Eu queria trazer esse instrumento de volta ao mundo real e ajudar as pessoas a usá-lo para expor o que sabem sobre si mesmas como portadoras de muitas tradições. Afinal, os americanos são uma mistura de muitas heranças diferentes, então isso poderia ser uma ferramenta de expressão pessoal.” Carlos Nakai

Parte da filosofia de Nakai é garantir que a flauta nativa não se torne uma “peça de museu” de uma cultura passada. Por meio de suas composições originais e outras colaborações musicais, Nakai pôde mostrar a versatilidade e as capacidades do instrumento.

Nas últimas décadas, Nakai combinou seu treinamento clássico com sua experiência na flauta de cedro para formar um som complexo e sofisticado que não apenas revela a singularidade da flauta, mas cobre uma vasta gama de gêneros musicais como: meditações devocionais, conjuntos de jazz e obras sinfônicas. Além disso, a música de Nakai apresenta proeminentemente improvisações na flauta de cedro nativo americano. Ele também toca apito de osso de águia, cânticos e sons da natureza. Embora ele ocasionalmente toque arranjos de melodias tradicionais, a maioria de sua música tenta recriar composições originais que capturem a essência de sua herança de maneiras altamente personalizadas e contemporâneas. E para isso, ele usa tecnologia eletrônica, como sintetizadores e delay digital.

A música que Nakai vem criando há décadas pode ser enquadrada no estilo de música da nova Era (New Age) e vem sendo prontamente aceita por um amplo espectro de pessoas na América e outros lugares do mundo e isto se deve, essencialmente, pelo fato de o próprio povo americano, povo que apresenta uma enorme mistura cultural de diversas regiões do planeta, encontrar-se perdido culturalmente. Muitos não sabem exatamente quais são suas raízes. Nasceram na América, mas não se consideram nativos. Estas mesmas pessoas vêm encontrando na cultura da nova Era um meio de se sentirem enraizados. Muitos americanos parecem se considerar visitantes em seu próprio país. Buscam os povos indígenas querendo se tornar nativos, mas não percebem que eles também são nativos.

No contexto da indústria da música como é hoje, “New Age” é o rótulo da música feita por Nakai e para ele este gênero vai além de algo novo, é a união do novo com o antigo.

“Eu gostaria de chamá-la de “Música de Continuum”, porque está sempre crescendo, construindo e mudando, nunca é a mesma.” Carlos Nakai

Suas primeiras músicas eram gravadas em fita cassete e vendidas nas aldeias navajo, mas Nakai foi descoberto pela gravadora Canyon e seu primeiro álbum, Changes, foi lançado em 1983 e, desde então, ele lançou mais de trinta e cinco álbuns. Ele também dá workshops educacionais e residências, se apresenta como solista, além de fazer trilhas para filmes e peças de teatro.

 

A essência

“Eu incentivei as pessoas a pesquisarem por si mesmas para encontrar sua própria música… para usar o instrumento para se compreenderem.” Carlos Nakai

Em 1987, Nakai conheceu Ken Light em um evento. Ken era um dos três fabricantes de flautas no mundo que criava instrumentos modernos afinados em 440hz. Ficaram amigos, pensaram juntos em como levar esses ensinamentos a um público mais amplo e decidiram organizar oficinas de flauta juntos.

Iniciaram a primeira oficina e a experiência aconteceu por 20 anos. No centro das oficinas estava a flauta, mas ela se tornou muito mais do que aprender a tocar um instrumento, era um mergulho mais profundo na música como meio de auto expressão e na importância de como desenvolver o nosso relacionamos com o nosso mundo em geral, a Terra e o cosmos. O curso oferecia aos alunos várias maneiras de desenvolver a filosofia pessoal.

A maioria das pessoas não tinha formação musical formal, mas receberam ferramentas para começar a trabalhar com seus instrumentos. Dentre as atividades ensinadas, respiração e alongamento do corpo eram temas de grande importância. Não tinha nada a ver com ler música, mas aprender a “cantar a canção inata de cada um”. Os alunos eram encorajamos a fazer sons – quaisquer sons – para se sentirem confortáveis ​​ouvindo sua expressão particular através da flauta.

No mundo de hoje tem toda essa história de precisar ser bem treinado para fazer boa música. Mas Nakai e Ken queriam estimular que os estudantes encontrassem sua própria música. Entendessem o que queriam dizer. Pessoas com formação musical tiveram problemas com estas oficinas, pois diziam que os mentores estavam revelando segredos que se levava anos para adquirir. Mas para eles, a música não se limita a um grupo seleto de pessoas:

“as crianças cantam o tempo todo. Os pássaros cantam o tempo todo. Cada ser faz sua própria música. É uma expressão pessoal.”

Nakai passou a se identificar tanto com o trabalho que vinha sendo realizado que percebeu que aquilo era o que ele queria fazer, era quem ele era. Então começou a incluir suas heranças nas experiências, seus conhecimentos e formação musical. As coisas passaram a fluir para o artista que passou a ser convidado para dar palestras sobre a cultura, história, estilos de vida e colonialismo dos índios americanos.

“Quando vejo pessoas que estão ansiosas para se expressar, crescer e mudar, quero aparecer para facilitar isso e homenageá-las. Aos meus olhos, somos todos tons da mesma cor. Todos nós desempenhamos um papel e todos viemos de mundos de sofrimento. Meu caminho específico pelo mundo é através da música. O seu pode ser alguma outra forma de arte, escrita, dança ou ensino. Mas, temos que segurar nossas canções. Devemos aprender a ser nós mesmos.” Carlos Nakai

 

 

Referências:

 

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