“A música é o começo e o fim do universo. Todas as ações e movimentos feitos no mundo visível e invisível são musicais. ” (Hazrat Inayat Khan mestre Sufi)

“A flauta é tão velha quanto o mundo.”  (Antigo ditado dos índios americanos)

Um estudo feito com o objetivo de explorar o potencial curativo da música tocada através da Flauta Nativa Americana, sobre casos diversos de traumas profundos apresentou um interessante ponto de vista sobre as flautas, sobre a música sagrada dos povos antigos e todo o profundo respeito desses povos pelos saberes vindos dos ancestrais e dos mundos sutis invisíveis. A pesquisa demonstrou existir um campo inexplicado dentro dessa musicalidade ancestral, que definitivamente parece afetar camadas do subconsciente e auxiliar em tratamentos de traumas e distúrbios iniciados durante a infância.

Estes traumas desencadeiam um distúrbio denominado “dissociação” no qual o indivíduo apresenta um estado de profunda desconexão com o mundo a sua volta, como quando alegamos nos sentir “avoados” com dificuldades de concentração, ansiosos mas sendo este distúrbio um estado permanente que pode durar uma vida inteira e desencadear sintomas diversos como pânico, depressão, explosões de raiva, pesadelos e até amnésia.

Cura

Nas cosmologias antigas, cura significa retornar à totalidade. Trata-se de facilitar o retorno à harmonia e de equilibrar o relacionamento interno, interconectando este relacionamento com a nossa relação com o todo, com tudo que pode ser visto e tudo que não pode ser visto: o indivíduo (corpo, emoções, pensamentos e espírito), a natureza e o próprio cosmos.

 

Música

A crença no poder da música é universal. A música é identificada com as crenças da criação do mundo e tem sido usada para orações e curas nas antigas tradições místicas e indígenas ao longo dos tempos e culturas. Os xamãs, filósofos e místicos veem a música como uma força equilibradora, unificadora e curativa. O uso da música para a cura pode ser rastreado até o início da história registrada.

 

Música e Trauma

Uma enfermeira, Margaret Anderton, no final da Primeira Guerra Mundial, trabalhava com soldados canadenses feridos. Ela descreveu o tratamento da “neurose de guerra” com música. Ela afirmou que “as memórias foram trazidas de volta aos homens que sofrem com amnésia; a insanidade temporária aguda eliminada; músculos paralisados ​​restaurados.” Ela descreveu um capitão em particular, “que foi lançado ao ar e depois enterrado nos escombros com o estouro de uma bomba e nunca foi capaz de lembrar nem mesmo seu próprio nome até que a música o restaurou”. Esse trabalho inicial foi realizado com veteranos que provavelmente agora seriam diagnosticados com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, exibindo sintomas de dissociação.

Foi após a Segunda Guerra Mundial que o uso terapêutico da música foi formalmente denominado “musicoterapia”. Foi usado para lidar com o trauma do combate, usado com sucesso na redução da depressão e ajudando no retorno de memórias dissociadas

“A música é o mais profundo medicamento não químico” (Oliver Sacks (1933 – 2013) – Neurologista)

 

A Flauta Nativa e a Cura 8

 

Música nas Tradições Espirituais e Indígenas antigas

Para descrever a importância da música nessas cosmologias antigas, é importante reconhecer as diferentes crenças e seus mitos sobre a criação do mundo. Desta forma identificamos o coneito universal de que o mundo surgiu a partir do “som”.

 

“Uma Palavra, e todo o Universo começou a existir.”

Granth Sahib (Escrituras sagradas dos Sikhismo Indianos)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

Bíblia Cristã

“E Deus disse “Haja luz” e houve luz”

 Antigo Testamento Judaico

“Consequentemente, com aquela Palavra, com aquele Ser, ele trouxe todo este universo, tudo o que existe.”

Upanishads hindus

Existem muitas tribos nativas americanas e, portanto, muitas crenças sobre a criação. No entanto, há uma crença em muitas tradições indígenas americanas de que este mundo foi “trazido à existência por canções sagradas”. Durante a Cerimônia da Flauta Hopi, existem as canções para situações de “emergência” no mundo. Quando as “canções de emergencia” são cantadas, utiliza-se flautas de junco. É importante notar que tanto a “música sacra” quanto a “flauta”, estão conectadas nesta cerimônia auspiciosa.

Desde o início que o som é considerado sagrado e imbuído de poderes especiais. Tudo é criado a partir do som sagrado, tudo é sagrado, tudo está vivo e tudo tem um espírito e o seu próprio som.

Natalie Curtis, que estudou música nativa americana no final de 1800, descreveu que todas as coisas possuem “alma” e tudo tem seu próprio som ou música.

Hazrat Khan, mestre e místico sufi, também descreveu que cada pessoa tem seu próprio som. Os seres humanos, tanto na forma física como em espírito, são um som ou uma música.

Como o som sagrado faz parte das crenças da criação do mundo, e o som sagrado é aquele de que todas as coisas são feitas, entende-se que o som sagrado pode facilitar a cura, através do retorno ao equilíbrio e a harmonia do nosso ser, como uma unidade sagrada com o planeta. O som se torna a força unificadora de cura.

Na descrição de uma cerimônia de cura Navajo, um conceito da Unidade é ilustrado:

“A doença física e mental é o resultado da perturbação da harmonia. Por outro lado, a cura para a doença é restaurar a harmonia do paciente. É este o objetivo da cerimônia Navajo –  buscar a preservação ou restauração da harmonia ” ––Bahti

A flauta, em muitas histórias, lendas e tradições antigas, foi associada à magia, ao misticismo e à capacidade de transformação. É fácil lembrar de “O Flautista de Hamelin”, a “Flauta Mágica” de Mozart, Krishna e sua flauta. A capacidade da flauta de induzir transe ou alterar estados de consciência foi descrita por Platão e Aristóteles. Apitos e flautas ósseas foram descobertos no templo de Apolo em Delfos e Apolo é considerado um deus da música e um deus da cura.

 

A Flauta Nativa e a Cura 9

Há um velho ditado nativo americano que diz: “Sempre houve uma flauta, assim como sempre houve os jovens. A flauta é tão antiga quanto o mundo”. As descobertas arqueológicas podem dar crédito a este ditado, pois até hoje a flauta é documentada como sendo o instrumento mais antigo descoberto.

Há uma imagem bem conhecida de um flautista corcunda retratado na arte rupestre antiga da América do Norte. Esta imagem foi descrita como o “sacerdote da chuva”, “divindade” e “xamã”. Todos esses seres são identificados como tendo capacidades sobrenaturais.

No mito, na lenda e na prática, a flauta indiana é descrita em termos de sagrado, cura, transformação e amor. Em uma lenda Dakota, a flauta foi trazida aos humanos pelo sobrenatural “Elk People”. Estava “imbuída dos sons e do poder de todas as coisas vivas …” e expressava “o mistério divino e a beleza do amor”.

A flauta nativa americana é um instrumento musical único, segundo a lenda o mais antigo. Está imbuído nas antigas tradições espirituais indígenas e místicas, as crenças incluem a flauta ao poder da música sagrada. São essas canções, essas orações, que são usadas para manter e restaurar o delicado equilíbrio da harmonia quando ele se desequilibra. Curar com “canções” e orações é manter em harmonia algo tão vasto como o cosmos e aparentemente tão limitado como um indivíduo.

 

A Pesquisa

Foi Realizada esta pesquisa com adultos com mais de 18 anos, entre homens e mulheres. Um grupo apresentava diferentes tipos de traumas dissociativos e o outro grupo era omposto por adultos sem traumas. Para ambos os grupos foram realizados testes com uma específica música sagrada tocada na Flauta Nativa e Uma outra música “placebo” new age.

 

RESULTADOS OBTIDOS (Respostas dos participantes ao ouvir a flauta nativa)

“Parecia que estava voando …”

“Isso me levou para a floresta …”

“… amarrou tudo junto.”

“Como as pessoas podem se sentir assim? Eu gostaria de ter isso em vez de Xanax … me sinto tão bem. Parecia com a sensação de quando eu tomava morfina… céu … algo totalmente pacífico. Deve ser como quando as pessoas morrem.”

Uma participante do Transtorno Dissociativo descreveu ter sonhos recorrentes e incômodos com ursos que a perseguiam.  Durante a experiênia ela descreveu que enquanto ouvia a música da flauta os ursos começaram a persegui-la novamente e ela correu, mas desta vez eles a alcançaram. Ela declarou sua surpresa e felicidade que ao pegá-la, eles a seguraram e protegeram.

 

Características Xamânicas Identificadas na Pesquisa

Existem quatro características do trabalho realizado através do xamanismo, conforme descrito na obra acadêmica de Eliade.

  • Jornada
  • Conexão com a natureza
  • Relação com o Espírito
  • Fenômenos espaço-temporais

As respostas obtidas dos participantes analisado relacionadas às características xamânicas:

Jornada:

“Era como estar em uma viagem …” 

“Levei-me para a floresta à noite. Eu tinha animais me protegendo …”

 

Conexão com a Natureza:

“Eu estava na natureza, eu era da natureza, como uma parte dela, … uma árvore ”.

“Eu estava em contato com a natureza, o céu, o vento, como uma evocação de todas daquelas coisas”. “Como se eu fosse um lobo uivando para a lua.”

 

Relacionado com o Espírito:

“… Me senti espiritualmente tocado.”

“… Parecia um chamado para uma cerimônia.”

Um participante do transtorno dissociativo relatou ter ouvido as palavras “Volte para casa, volte para casa” e “É seguro … então o corpo poderá sentir paz”. Quando foi questionado: “O quê acredita ser: volte para casa?” Ela respondeu: “Era sobre a minha alma … pra que ela voltasse para casa.”

 

Fenômenos de espaço-tempo:

Uma participante do Grupo de participantes da pesquisa sem traumas, relatou ter voltado em uma vida vivida na África, há cento e cinquenta anos atrás, durante o funeral de sua mãe. Essa participante parecia ter uma descêndencia afro-americana, embora dissesse que nunca tinha estado na África. Ela descreveu a música da flauta como sendo “cerimonial” e como a experiência foi “linda”. Ela repetiu como a “cerimônia” foi pacífica e bela.

 

Correlatos Antropológicos

Parece haver um paralelo antropológico no conceito de “perda de alma”, presente em várias culturas indígenas do mundo com o distúrbio de dissociação ligado a trauma. Para a cultura indígena, a perda da alma pode ser parcial ou total. Na psicologia, isso é descrito como a perda da memória, do afeto ou do senso de identidade pessoal. Nas culturas indígenas, o processo para se reconectar ao seu eu é frequentemente auxiliado por um xamã, em práticas de resgate da alma.

O xamanismo, considerado uma das formas mais antigas de cura, continua a usar “sons” e “música” para se comunicar e acessar o mundo dos espíritos, e esse tipo de uso da música para a cura ainda é praticado hoje em várias sociedades tribais e não tecnológicas ao redor do mundo.

 

A Importância do Músico

Quão significativo é o flautista? Um número significativo de participantes da pesquisa relatou ter ouvido anteriormente outra música de flauta nativa americana, descrevendo que essa música em particular os afetou de forma diferente, mais ativamente. A extensão do efeito de cura tem algo a ver com o flautista, suas atitudes e intenção, parece ser algo além da ténica e habilidade para tocar. Outras pesquisas comparativas ajudarão nesta determinação.

Hazat Khan, um místico sufi escreveu sobre a influência e as características da música sacra. Ele escreveu também sobre os músicos. “O efeito da música depende não só da proficiência, mas também da evolução do intérprete. Seu efeito sobre o ouvinte está de acordo com seu conhecimento e evolução; por esta razão, o valor da música difere em cada indivíduo.”

 

Conclusão

Existem implicações etno-musicológicas significativas do estudo a serem exploradas mais adiante. Mas através desta experimentação identificou-se que por meio do que pode ser qualificado como som xamânico ou sagrado, pode ser potencializado um retorno à totalidade (ou seja, interconectividade) experimentando-se diferentes estados de expansão da consciência. A busa pela totalidade pode ser orientada por um psicólogo ou através da busca por caminhos mais sutis. O som toca profundamente, indo muito além das palavras e do intelecto. Através de todo este estudo da música e das flautas ancestrais, o paradigma conceitual do disturbio dissociativo pode ser expandido sendo entendido não somente como uma orientação psicológica, mas também como um desalinhamento espiritual orientado dentro de uma visão de mundo transcultural. A dissociação, a mente humana, os conceitos de espiritualidade e consciência podem começar a ser explorados e compreendidos de formas até então imprevistas, por meio do som.

 

Referência:

The effects of sacred/shamanic flute music on trauma and states of consciousness – Lenore L. Wiand, Ph.D.

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