Artigo inspirado na tese de Judy Epstein Buss, sobre a presença da Flauta na cultura dos povos indígenas da América do Norte. Este estudo fornece um elo importante para a compreensão do uso tradicional da flauta e das músicas tocadas por flautas nas culturas indígenas norte-americanas. Esta tese foi escrita em 1977.

 

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Flautista Hopi – Povo de Mishongnavi, Arizona – 1880-1900

A flauta ocupou um papel importante e único na cultura dos índios norte-americanos. Com as mudanças drásticas que essas culturas sofreram desde os anos 30 (deslocamento, difusão e aculturação frequentes), muitos traços culturais desapareceram total ou parcialmente, entre eles os registros sobre a flageolet (Instrumento de sopro da família das flautas). Consequentemente, este estudo é quase inteiramente baseado em material coletado antes de 1935.

Aparentemente, a fabricação e execução de flautas era privilégio de poucos dentre os povos indígenas, sendo assim, muitos registros sobre este instrumento se perderam. O mesmo não aconteceu com as canções e histórias pois eram passadas oralmente e compartilhadas por todos, o que ajudou muito em sua preservação.

A diversidade entre os povos nativos americanos era tão grande, tantas crenças, histórias, mitos, ritos, que as vezes dentro de uma mesma aldeia encontravam-se relatos e descrições de sua própria cultura em versões diferentes.  Este estudo foi um grande desafio para a pesquisadora adquirir uma compreensão completa do lugar da flauta na cultura indígena americana.

Nos folclores, histórias e registros sobre a cultura indígena Norte Americana, as flautas, apitos e flageolets eram citados vagamente. Devido ao fato de os responsáveis por tais registros não serem músicos, não levavam em consideração a diferença existente entre estes instrumentos. E por este motivo, neste estudo, o termo “flauta” será usado para se referir a esses instrumentos de forma geral.

 

O Papel e o Significado da Flauta na Cultura Indígena norte-americana

Apesar da grande variação entre as culturas, a flauta parece ser quase universalmente vista como um símbolo fálico. Em todo o mundo, a flauta é associada à fertilidade, nascimento, vida e morte e é usada em diversos rituais centrados nesses assuntos.

 A cultura indígena americana produziu uma rica variedade de mitologias e lendas sobre a origem da flauta que demonstram seu poder sobrenatural. As fronteiras entre o mito e a vida real tornaram-se confusas. Sendo assim, em rituais ligados à flauta, testemunha-se uma curiosa síntese entre as duas.

A flauta parecia representar particularmente a fertilidade masculina na cultura indígena norte-americana. Segundo a mitologia, assim como pelas etnografias reunidas em toda a América do Norte, torna-se evidente que o tocar flauta era restrito apenas aos homens. Mesmo na Cerimônia de Moagem de Milho dos índios Pueblo, um ritual realizado apenas por mulheres, relatos descrevem um homem tocando flauta para acompanhar o canto e a dança das mulheres.

Em todo o material examinado, apenas um exemplo foi encontrado citando uma mulher tocando flauta e neste caso, o propósito era de ensinar um menino a tocá-la. Este exemplo está no livro “A história da origem da flauta”. (Frances Densmore – 1867–1957)

A fabricação de flautas não pareceu ser restrita a homens. Mitos relatavam que as flautas eram feitas por Xamãs e sonhadores, homens e mulheres, que segundo se acredita, tinham contato direto com o sobrenatural e eram capazes de atribuir poder mágico à flauta. Numerosos exemplos de mulheres que faziam flautas podem ser encontrados nas mitologias, porém não existem evidências históricas concretas sobre esta atuação das mulheres no universo das flautas dos povos Nativos da América do Norte.

As lendas ilustram temas como: natureza dos poderes mágicos ligados à flauta, o poder que este instrumento tem de controlar o clima, de atrair mulheres, além de sua utilização como meio de transporte.

Um exemplo que traz especialmente à tona o poder mágico atribuído à flauta é encontrado nos mitos e contos apaches. A flauta passa a ser um meio de transporte, fato que Goddard diz:

“…é um dos métodos reconhecidos de transporte rápido”  (Goddard 1919)

Em várias versões da história “O Mito da Criação”, um homem que estava procurando por sua esposa desaparecida usou a flauta para viajar pelas montanhas:

“Ele partiu, viajando com uma flauta azul que tinha asas… ele deu a volta completa na fronteira do mundo”  (ibid)

Muitos mitos abordavam temas relacionados aos poderes de encantamento da flauta, sendo ela utilizada como instrumento de sedução de homens para mulheres.

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Chaiwa, uma garota Tewa com um penteado em espiral de borboleta, fotografada por Edward S. Curtis em 1922

 

A Fertilidade na Natureza

Nas áreas onde o milho é cultivado, existem crenças que relacionam o simbolismo da fertilidade e bem estar com o simbolismo da flauta. O escritor Carlos Castaneda observou que por volta de 1541, era comum o uso de flageoletes em Cerimônia de Moagem de Milho, entre os Tewa Pueblos (Os Tewa são povos indígenas norte-americanos que falavam a língua Tewa e compartilham a cultura Pueblo. Suas terras natais estão perto do Rio Grande, no Novo México, ao norte de Santa Fé). Esses rituais eram realizados por mulheres, que utilizavam o som de pedras de amolar, danças e cantos para compor sua cerimônia mas o interessante foi identificar a presença de um flageolet sendo tocado por um homem sentado à porta (Hammond-GP 1940).

Um outro exemplo da relação estreita entre a flauta e o milho, datada em um período posterior, pode ser encontrada em um estudo de AM Stephen, de uma cerimônia de iniciação ocorrida na Sociedade de Flautas Hopi:

“Quando um jovem deste povo é trazido para conhecer o altar da flauta pela primeira vez, ele deve trazer um punhado de farinha como oferenda para o homem que escolheu como ‘padre’ ou ‘mestre’. O ‘padre’ lança a oferenda sobre o altar … Na quarta noite da cerimônia o noviço é iniciado e recebe a espiga de milho, que simboliza sua ‘mãe’ protetora, e ele segura esta espiga durante todo o canto… Posteriormente esta espiga é colocada na casa onde este jovem vive com sua família. Ela garante boa comida e saúde para o corpo, é por isso que uma espiga simétrica é sempre a escolhida” (Stephen 1936).

 

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Kiva em Spruce Tree House – Adam Baker

 

As sociedades Blue e Drab, que agora estão extintas, desempenharam um papel muito importante na cultura Pueblo. Um dos principais deveres dessas sociedades era orar por chuva e fertilidade, bem como por clima quente e boas colheitas. Como os índios pueblos vivem principalmente em um ambiente desértico, a ausência de chuva era uma ameaça à sua existência física. Assim, muito do rico cerimonialismo dos pueblos girava em torno dessa preocupação. Um dos eventos mais importantes que acontecia na cultura Pueblo era a Cerimônia da Flauta, que ocorria em agosto. A cerimônia e a mitologia estão intimamente conectadas. Ritos secretos eram realizados nas salas ancestrais desta sociedade, estas cerimônias não eram realizadas nas kivas (Kivas são grandes salas circulares e subterrâneas, usadas pelos povos pueblos para suas cerimônias), onde a maioria das outras cerimônias eram realizadas. Os detalhes precisos deste ritual eram conhecidos apenas pelos sacerdotes que eram os principais executores da cerimônia e responsáveis ​​por sua transmissão às gerações seguintes de sacerdotes. O altar da flauta era um santuário coberto com desenhos e um grande número de itens repletos de simbolismo. No altar da flauta estava representada a imagem do Locust (Gafanhoto, Kokopelli), o flautista corcunda conhecido em todo o Sudoeste como o símbolo da “cura” na sociedade da flauta. Essa figura intrigante está ligada ao clima quente, a fertilidade e mais ainda à bravura. Os vários papéis atribuídos a esse personagem abrangem muitos aspectos da vida: fertilidade, vida, controle do clima para aquecimento, chuvas, boas colheitas e guerra.

Entre os índios Fox, a flauta também era um componente do pacote de “curas” através da Dança do Búfalo Branco. Dissipar tempestades está incluído entre uma das várias funções deste ritual.

É interessante observar que o número quatro está sempre relacionado à flauta e seu significado sobrenatural em rituais e mito. Essa relação se expressa de várias maneiras, como em cerimônias em que os participantes circulam um lugar ou objeto quatro vezes, uma determinada ação é realizada por quatro pessoas em diferentes pontos de um ritual, ou algum aspecto ou procedimento que dura quatro dias. Além de estar presente nas mais diversas formas em mitos ligados às flautas.

A Aparência Visual e Estrutura da Flauta

A aparência visual da flauta é parte integrante de seu papel simbólico. No entanto, devido à escassez de material sobre esse aspecto, é difícil obter uma compreensão suficiente da variedade de design e cor das flautas nas culturas indígenas norte-americanas.

Dentre os principais fatores que determinam o potencial de uma flauta, temos o número de orifícios, que nas flautas dos índios norte-americanos costuma ser de quatro a seis. Também existem flautas de três e sete orifícios para dedos, assim como algumas com orifícios extras no fundo do tubo. Mas as evidências quanto ao número certo de orifícios são muito vagas. Entretanto, pode-se especular que o número de furos em algumas flautas é determinado por razões simbólicas e não musicais. Uma vez que quatro dedos são mais comuns, é provável que o número quatro, mais uma vez, desempenhe um papel simbólico. No mito “A Origem do Flageolet” das aldeias Mandan e Hidatsa. Vovó, (personagem do conto) que fez uma flauta com um talo de girassol, explica que “os sete buracos dos dedos representam os sete meses de inverno”.

Algumas flautas tiveram orifícios adicionados na extremidade inferior do tubo. Como acontece com algumas flautas chinesas, esses buracos não eram usados ​​para tocar. Não está claro se esses orifícios extras foram feitos para mera decoração ou tinham alguma outra função. Não é improvável, entretanto, que algumas aldeias indígenas tenham sido influenciadas pelos chineses. Merriam menciona a presença da influência chinesa na última parte do século XIX, quando muitos chineses vieram para o oeste de Montana. Flautas com esses orifícios adicionados podem ser encontradas em várias aldeias.

A distância entre os furos parece aproximar-se do tamanho da mão e dos dedos do fabricante ou daqueles para os quais uma flauta específica pode ser feita. Merriam descreve como um Índio Cabeça-chata, fabricante de flautas, faz os furos: “… o artesão coloca seus dedos no tubo oco no que parece ser a posição apropriada e queima os buracos na madeira …”

A questão da distância entre os orifícios dos dedos precisa de um estudo mais aprofundado. Os orifícios em muitas flautas, especialmente os de três ou quatro, são equidistantes. Em uma flauta de seis buracos, geralmente há dois grupos, cada um composto de buracos equidistantes. Em outro exemplo, Densmore fala sobre um fabricante de flauta Yuman, o Capitão George: “ ele marcou lugares para três orifícios de dedo onde seu dedo descansava mais convenientemente”

Em seu livro “The American Indians and Their Music”, Frances Densmore discute brevemente a questão da posição dos furos para os dedos: “Os índios em todas as aldeias questionados pelo escritor disseram que os furos para os dedos na flauta são espaçados de maneira conveniente para a mão do flautista.” Os tamanhos das flautas e o material de construção podem variar muito dentro de uma aldeia, muitos tipos diferentes de madeira são usados, incluindo cedro, zimbro, sabugueiro, junco e assim por diante. Algumas madeiras menos comuns usadas são o talo do girassol, junco seco de pastinaga selvagem. Outros materiais usados: cerâmica (Pueblo) cano de arma (Apache) pipestone vermelho (Sioux).

A cor e o design estão entre os aspectos visuais mais reveladores quanto à ligação entre a flauta e o seu papel simbólico. Um grande número de flautas descritas ou coletadas por etnógrafos e etnomusicólogos foram pintadas em uma variedade de cores. Algumas cores, como vermelho, rosa, preto, amarelo e verde, são particularmente comuns. As cores são aplicadas às flautas manchando ou desenhando figurações especificamente simbólicas, como pontas de flechas, ziguezagues (retratando relâmpagos), a serpente d’água com chifres e estrelas. As cores apresentam uma ampla e complexa variedade de conotações. Cada cor pode estar ligada a certos aspectos da vida e do universo. Todas as direções do mundo, por exemplo, são representadas por cores.

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Apitos Nativo americano – Sécilo 19 Povos Oglala Lakota, Sioux – Foto: Metropolitan Museum of Art de Nova York
Apito com a extremidade esculpida em forma de cabeça de pássaro. O som é gerado por uma corrente de ar que atinge a ponta afiada de um pedaço de pena partido colocado sobre a abertura na lateral do tubo. Esses apitos são usados na dança cerimonial da Garça.

 

Alguns dos desenhos geométricos mencionados acima são queimados na madeira para que os desenhos em preto se destaquem na cor mais clara da madeira. Outra tradição muito difundida é a ornamentação de flautas com efígies de animais. Uma flauta Papago na coleção do Museu Metropolitano de Arte de Nova York termina com um bico de pássaro. A flauta de cortejo dos Sioux tem uma cabeça de pássaro. A Grande Flauta Torcida dos Sioux é ornamentada com a efígie de um cavalo e pintada de vermelho no interior de cada orifício. Uma flauta Oglala em exibição no Metropolitan of Art de Nova York é decorada com um coelho esculpido. No Museu do Índio Americano da Fundação Heye em Nova York, flautas Cheyenne e Winnebago em exibição, terminam com cabeças de pássaros.

Na intrincada cultura indígena americana, os animais simbolizam certos aspectos da vida ou atributos, como bravura, caça bem-sucedida e riqueza. Portanto, não é surpreendente encontrar efígies de animais esculpidas ou montadas em flautas. Outros dispositivos ornamentais e cerimoniais frequentemente usados ​​incluem contas, conchas, penas, vidro, lascas de metal ou mesmo a fixação de pequenas bolsas de remédios.

 

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Flauta dos Índios Winnebago – Foto: Detroit Institute of Art

 

A discussão anterior dos diferentes elementos que afetam a construção e a aparência da flauta apoia a suposição de que os conceitos não musicais influenciam grandemente a fabricação de flautas. No entanto, há evidências claras de que os critérios musicais também desempenham um papel importante:

Ao analisar as canções tocadas através de flauta, percebe-se que existe, em geral, um sistema uniforme no estilo musical incluindo escalas. Isso provavelmente não teria existido se sua construção fosse inteiramente baseada em considerações não musicais. A evidência mais forte de que os fabricantes de flautas estavam preocupados com os tons produzidos por seus instrumentos é o fato de que em muitas flautas um bloco de afinação era colocado, para controlar entonação. Uma série de flautas às quais um bloco de afinação está anexado estão em exibição no Museum of the American Indian em Nova York. As flautas dessa coleção com blocos de afinação incluem as do Blackfoot, Semiole e Winnebago.

Através de todo este estudo, podemos perceber a forte presença da flauta na cultura de grande parte dos povos indígenas da América do Norte e toda a sua relação com o universo sagrado desses povos. Demonstrando que todas as variações presentes nestes instrumentos, sejam elas através do material cujos instrumentos são feitos, número de furos e até mesmo a pintura e acabamento, todas essas características de alguma forma apresentam relação com as crenças sobrenaturais ou hábitos dos povos.

 

Referênias:

Arte da capa: cidolart

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