O menino e a flauta

mito dos índios nambiquara

Antes, tudo que tinha já estava naquelas matas do vale, do beira rio. Era uma andança danada, de cá pra lá, atrás de caju, abiu, castanha, pequi. Tinha também, que o mato dava, o coco do buriti, o araçá, o mel de jataí. Às vezes o mato minguava, ficava seco, não dava nada. O pessoal vivia reclamando dessa falta de comida. Taquara sempre teve muita, para fazer flecha à vontade.

O índio ficava tempo e tempo aprumando uma pena no rabo da flecha, acertando o equilíbrio pra dar bom voo. Sempre foi desse jeito, caçador nos detalhes. E bicho, era o que mais tinha. Nas bandas do buritizal, longe da aldeia, um índio tinha visto rastro de anta, de paca, tatu.

No outro dia, tardinha, sol frio, ele e seu filho saíram para caçar. No meio do mato, o menino ouviu um som muito bonito:

–  Escuta! Que barulho gostoso…

O pai não estava escutando nada, continuou andando. Mais um pouquinho, outra vez:

– Escuta, pai! Que música bonita!

– Não estou ouvindo nada, não. Preste atenção, olha só: o rastro da anta. Ela ainda volta por aqui.

Subiram numa árvore, bem quietinhos pra esperar a anta. O menino só ouvia aquele som, soprando macio no meio das folhas.

Passou um pouco, a anta veio mesmo. Flecha no arco, corda esticada, a anta quase no papo, o menino para tudo:

– Escuta, pai! Que lindeza! Isso é barulho de flauta!

A anta ficou pra escutar? Foi a conta de fugir na mesma hora.

O pai, que não estava ouvindo coisa nenhuma, ficou zangado:

– Que flauta, que música, que som, que nada! Desse jeito você não aprende a caçar. Agora temos que voltar pra aldeia de mão vazia. E toca a andar, que a tocandira é formiga que anda a noite e não deixa um sem ferrar.

O menino era um xamã, ninguém sabia. Xamã é um grande sabedor de coisas.

Ele sabe o que todo mundo sabe, sabe o que os outros não sabem e sabe aquilo que ainda vão saber. O menino era assim, revelador de coisas que ninguém sabia.

Quase noite, os dois voltando pra casa, o menino falou:

– Esta floresta está muito boa, pai. Eu quero ficar e crescer aqui mesmo. Você pode voltar pra aldeia sozinho.

– Mas eu não posso fazer isso. Você tem que voltar comigo.

– Não, nada disso. Quero que você me carregue, fazendo um grande círculo. Depois, me deixa bem no meio.

Era uma ideia aloucada mas o pai não teve força pra resistir. Enquanto fazia a roda, o menino falava:

– Não conte pra ninguém onde estou. Ninguém pode saber. Você tem que esperar duas luas pra vir me encontrar.

Assim, o índio voltou sozinho pra aldeia. Foi chegando, sua mulher quis saber cadê o menino.

– Não sei, não. Estou zangado e muito triste. Ninguém sabe onde ele está.

A mulher começou a chorar, chorou a noite inteira.

No escuro do mato, o menino trabalhava com os seus poderes. Deu de inventar tanta coisa! Pra começar fez uma corda de embira muito grande e amarrou todo o mato. Diz que só numa puxada de força arrancou tudo. Deixou só a terra mesmo. No dia seguinte sua mãe entrou um pouquinho no mato e viu uma carreira de formiga-cortadeira carregando umas folhinhas diferentes. Seguiu as formigas e acabou encontrando o marido, apanhando favo de jataí.

– Olhe para essas formigas! O que elas estão carregando ?

Ele, percebendo que aquilo era artimanha do filho, distraiu a mulher. Que não era nada, não, coisinha à toa, sem serventia nenhuma, que fossem pra casa.

– Quando subir a próxima lua – prometeu –  vou procurar nosso filho.

A lua subiu bem alta, o pai do menino entrou na mata. Andou muito, a noite inteira, o lugar não chegava. As estrelas Três-Marias, que eram crianças Nambiquara também, estavam piscando no céu. Ele continuou a andar. As estrelas apagaram, o céu começou a vermelhar, de manhã bem cedinho ele chegou naquele bom lugar. Encontrou uma roça linda, com tudo que é planta boa de comer.

– Puxa! Meu filho trabalhou muito pra fazer tudo isso! – admirou.

– Mas onde será que ele está?

Foi quando ele ouviu um som bonito, soprando macio: o som da flauta. Seguiu o som até o poente, não achou o menino. A flauta começou a soprar do outro lado. Andou ao sol nascente, mas não encontrou nada. Foi ao norte, foi ao sul, a flauta tocando em toda direção, ele andando em círculos, desorientado. Já estava quase desistindo quando lembrou da tal roda que fez com seu filho. Talvez o encontrasse no meio dela: no meio da roça. Foi bem no meio da roça que ele encontrou uma flauta, tocando bonito, bonito mesmo. Estava cansado demais, parou quieto um pouquinho, escutando.

Se deixou embalar, só o som, só a música entrando devagarinho dentro dele.

Olhava cada nova planta, atentamente e, aos pouquinhos, foi descobrindo tudo: a cabaça, da melhor que tem pra fazer cuia, parecida com a cabeça do menino… a folha do pé de mandioca, que a formiga-cortadeira gosta de carregar, parecida com a mão do menino…Ah! Com certeza foi isso. O menino se transformou em roça, em tudo que é planta boa de  comer.

Os ossos viraram os galhos da mandioca. As pernas, mandioca mesmo, de fazer beiju e farinha tapioca.

As orelhas, então, eram favas; e as costelas, vagens de feijão.

Os dentes se transformaram em grãos de milho, as unhas em amendoim.

O sangue virou urucum, que se usa pra pintar o corpo de vermelho.

Tudo transformado! Até os piolhos do indiozinho acabaram virando semente de fumo.

Agora Nambiquara tem mandioca, tem toda semente, é só plantar. Não falta mais beiju. O menino fez tudo – virou roça.

Desse jeito ele existe pra sempre e pra todo mundo.

A sua voz é o som da flauta que toca suave, que sopra bonito.

O menino e a flauta - Lenda Nambiquara 1

(Transcrição e ilustração de Ciça Fittipaldi extraídos do Livro: O menino e a flauta – mito dos índios nambiquara. São Paulo. melhoramentos. 1986)

 

Sobre os índios nambiquaras:

A nação Nambiquara divide-se em numerosos grupos e suas aldeias estão espalhadas desde o vale do rio Guaporé até as fronteiras de Rondônia no Brasil. Ocupa territórios que variam entre campos cerrados, savanas semidesérticas, e uma rica e fértil zona de matas.

Cada grupo tem seu lugar de caçar, de pescar, tirar cipó e taquara, construir malocas, cultivar roças, sempre na proximidade de algum arroio d’água. Toda caça é dividida entre as famílias da aldeia, e as roças são familiares. As aldeias são circulares; no pátio central os índios à noite conversam, cantam e dançam. Esse pátio é o local sagrado onde enterram os mortos. Aí está também a casa das flautas, onde elas são guardadas e só os homens se reúnem para falar e tocar. As mulheres não podem ver as flautas. Acreditam que, se virem, adoecerão e morrerão. As flautas simbolizam a masculinidade e a vida espiritual, enquanto o elemento feminino está voltando para a vida material.

Os Nambiquara sempre viveram totalmente nus e com pouquíssimos enfeites. Não possuem redes, nem esteiras, nem cerâmica, nada além de algumas cabaças para armazenar e preparar alimentos.

Dormem diretamente no chão; nas noites frias, espalham cinzas da fogueira e deitam sobre elas. Há vários banhos durante o dia, muitas vezes seguidos do costume de rolar no chão para recobrir o corpo de terra.

Os Nambiquara têm uma vida espiritual muito rica. Creem numa infinidade de espíritos bons e maus, que habitam as matas, nascentes, cavernas, espaços sagrados de seus antepassados. Acreditam em seres invisíveis, com os quais se relacionam, ouvem suas vozes, queixas e cantos; deles recebem ajuda e proteção. Conversam com espíritos através dos xamãs, que também promovem a cura das doenças.

A festa mais importante é a da moça, que ocorre logo após a primeira menstruação. A moça fica reclusa numa maloquinha separada; passado o prazo, sai, toda enfeitada, em meio a cantos e danças no pátio da aldeia.

O ano Nambiquara se divide em dois períodos: chuva e seca. Durante a estação seca, a caça diminui muito e as roças não estão produzindo. A sobrevivência fica a cargo das mulheres, que andam à cata de tubérculos, raízes, cocos, frutos silvestres e sobretudo pequenos animais: insetos como gafanhoto, lagartos e seus ovos, roedores. E vários tipos de mel.

O alimento básico é o beiju de mandioca ou milho, espécie de pão assado debaixo da terra, sob as brasas da fogueira. A bebida de todo dia é a chicha, espécie de mingau feito de sumo de mandioca-brava, que se ferve até perder o veneno. Há também bebidas de fruta silvestres, como caju, abiu, goiaba.

A criança é considerada o maior bem da sociedade Nambiquara,e por isso é cercada de afeto e atenção incomparáveis.

Desde o contato com os brancos, no início deste século, as terras e a população Nambiquara diminuíram. Hoje com reserva demarcada, seu número começa a aumentar. Adquiriram alguns hábitos dos brancos, usam utensílios e roupas obtidos por trocas, mas são resistentes na defesa de seu patrimônio cultural.

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